Contra o preconceito

Há cada vez mais africanas a estudar e a trabalhar na China continental, mas os preconceitos e o racismo persistem.

Contra o preconceito

Contra o preconceito


Há cada vez mais africanas a estudar e a trabalhar na China continental, mas os preconceitos e o racismo persistem. O concurso Miss Mama Africa – que amanhã realiza a terceira edição -  procura combater o problema, promovendo a imagem de uma mulher independente e forte.

“Aqui na China os homens ainda vêem as mulheres como um ser frágil. Imagina se for africana. É demasiado para eles”, comenta a cabo-verdiana Haicha Santos, a estudar em Pequim. As palavras refletem o principal problema apontado pelo crescente número de africanas a viver no país: o preconceito.

A comunidade africana no Continente aumentou exponencialmente nos anos 90 e, segundo alguns académicos, chegou a ultrapassar o milhão. Mais de 80 por cento eram homens, escreveu Adams Bodomo em 2012. Seis anos depois, “não me surpreenderia se as mulheres já representassem 40 por cento,” admitiu o académico especialista em diáspora africana.

Em Guangzhou, 30 por cento dos comerciantes africanos são mulheres, refere Gordon Mathews, professor da Universidade Chinesa de Hong Kong. Adams Bodomo explica porquê: “Há mais e mais informação disponível sobre a China como um destino lucrativo para fazer negócio”. Além disso, acrescenta o professor da Universidade de Viena, na Áustria, tanto a China como África começam a levar a igualdade entre géneros em conta na hora de atribuir bolsas de estudos.

“Quando terminei o liceu tive que decidir entre Portugal e a China,” recorda Haicha Santos. “Na China, as condições são melhores. Temos uma bolsa completa,” explica a estudante de Economia Internacional, na Universidade Central de Finanças e Economia. “Cada vez há mais jovens cabo-verdianos interessados em vir para cá”, garante.

 

Invasão negra

Em março do ano passado, um membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês avisou para o perigo de uma “invasão negra”. Durante a reunião anual do parlamento da China, Pan Qinglin acusou os homens africanos de tráfico de droga, assédio sexual e de serem uma fonte de Sida e de Ébola. “Foi extremamente racista, mas não é caso isolado,” lamenta Adams Bodomo. Pan encontrou apoio entre os cibernautas chineses, com alguns a fazer “comentários muito ofensivos”, lembra o académico nascido no Gana.

As mulheres africanas têm escapado a este racismo institucional, com uma exceção. “Há um preconceito na comunidade chinesa que liga as africanas à indústria do sexo,” diz Gordon Mathews. Adams Bodomo confirma: “Falei com algumas mulheres durante a minha última visita em junho que me disseram que é frequente a polícia pedir-lhes os documentos por suspeitar que sejam prostitutas”.

Se os homens africanos são encarados como uma ameaça à segurança pública, as mulheres africanas são vistas como predadoras de um cavaleiro andante. “Tanto em África como na China, os homens ainda são muito machistas”, lamenta Haicha Santos. “A mulher deve ficar em casa, tomar conta dos filhos, entre outras tarefas”, realça a jovem nascida na ilha de Santiago.

 

Donzela em perigo

Roberto Castillo, professor da Universidade de Lingnan em Hong Kong, vai mais longe e defende que existe uma narrativa em que o continente africano é “a donzela em perigo que a China vai salvar”. No blog “Africanos na China”, o investigador mexicano dá como exemplo Debucada Sanca, uma estudante da Guiné-Bissau que, em 2013, foi a primeira africana a participar no “If You Are The One”, na altura o programa da televisão chinesa mais popular, que prometia ajudar solteiros a encontrar um par.

“A jovem foi descrita como ‘uma mulher de espírito aberto que estava presa pela tradição africana. Xiao De [nome chinês de Debucada] viu a China como uma forma de escapar ao destino (um casamento forçado)’,” refere Roberto Castillo. 

“Os telespetadores assumiram que era pobre e que estava à procura de um marido rico,” chegou a escrever o jornal estatal chinês China Daily. Um comentário que irritou a própria guineense: “Não peço casas nem carros, porque não é necessário. Sou uma mulher capaz”, respondeu na altura.

O estereótipo é confirmado por Djenga Lokoko. “Não apenas na China mas também um pouco pelo mundo inteiro, e sobretudo nos países ocidentais, as pessoas pensam que as mulheres africanas só têm beleza física e não podem ser inteligentes ou independentes,” sublinha o organizador do concurso Miss Mama Africa.

 

Beleza intelectual

A vencedora da terceira edição do Miss Mama África vai ser conhecida amanhã à noite numa gala que se realiza em Pequim. No total 20 mulheres africanas vão disputar um concurso que quer fugir aos desfiles em biquíni. “Não procuram um padrão de beleza. Não tens de ser alta e magra,” sublinha Haicha Santos.

O mais importante, diz Djenga Lokoko, é “dar às jovens mulheres africanas a viver na China uma tribuna para se expressarem”. Para tal, as concorrentes vão preparar um discurso sobre “o impacto da mulher independente africana para o desenvolvimento da sociedade africana”, explica o estudante da República Democrática do Congo.

Haverá ainda uma parte em que as jovens poderão demonstrar outros talentos. Haicha Santos está a ensaiar a declamação de um poema “que fala do poder de uma mulher”. “Quero mostrar que nós mulheres temos garra, temos força, temos capacidade para fazer mais do que julgam,” afirma a cabo-verdiana.

Após duas edições, a resposta do público e dos media chineses ao Miss Mama África tem sido de “apoio e encorajamento”, assegura Djenga Lokoko. Ainda assim, confessa o organizador, o concurso é transmitido para todo o continente africano, mas não tem lugar nas televisões chinesas.

 

O regresso

A integração das mulheres africanas na China continua a ser um sonho, a começar pela ausência de “um caminho visível para a obtenção de residência permanente e cidadania”, alerta Adams Bodomo. Mesmo os homens africanos casados com chinesas e já com filhos, sublinha o investigador, dificilmente conseguem mais do que um visto de entrada única.

Para Haicha Santos, há outros fatores que pesam. “Não tenho muitos amigos chineses, principalmente do sexo masculino”, lamenta a cabo-verdiana. Isto a juntar ao racismo sentido no dia-a-dia. “Sentamo-nos no metro e [os chineses] chegam-se para o lado para não se encostarem a nós. Vamos a uma discoteca e dizem-nos que não podemos entrar, só por sermos mulheres africanas,” lamenta a estudante.

O futuro de Haicha passa pelo regresso a Cabo Verde, já com um olho no hotel-casino que o empresário de Macau David Chow está a desenvolver no ilhéu de Santa Maria, ao largo da capital Santiago, de onde a jovem é natural. “Nós que estamos a estudar aqui na China e sabemos falar Mandarim podemos dizer que já temos trabalho praticamente garantido por lá”, acredita a futura economista.

Trabalhar na China não é fácil para quem tem a pele mais escura. “Há anúncios de emprego ‘apenas para professores brancos’ e outros que pedem professores negros com ‘tom de pele à Obama’”, conta a afro-americana Niesha Davis, blogger que vive em Xangai. Haicha Santos confirma, de forma amarga, que os empregadores “vão procurar primeiro os brancos e só se não encontrarem um branco adequado é que vão para os pretos”. 

 

Fonte: Plataforma Macau